O medo de “não passar” na avaliação psicológica para a bariátrica
A avaliação psicológica para a cirurgia bariátrica não é uma prova. Entenda o que ela investiga e por que o medo de “ser reprovada” merece ser escutado.
“Eu vou ser reprovada?” Essa costuma ser uma das primeiras perguntas de quem chega à avaliação psicológica para a cirurgia bariátrica. Muitas vezes, ela aparece antes mesmo de qualquer história ser contada.
É uma pergunta compreensível. Depois de anos de dietas, consultas e tentativas, a cirurgia surge como uma possibilidade concreta, e a avaliação psicológica pode parecer o último obstáculo entre a pessoa e essa decisão.
Mas a avaliação não é uma prova. E o medo de “não passar” merece atenção, porque costuma dizer mais do que parece.
A avaliação psicológica reprova?
A avaliação psicológica faz parte do preparo solicitado pela equipe multidisciplinar antes da cirurgia. Seu objetivo não é aprovar ou reprovar alguém, mas compreender como cada pessoa chega a esse momento: sua relação com a comida, com o corpo, com as próprias expectativas e com os recursos emocionais de que dispõe para atravessar as mudanças do pré e do pós-operatório.
Em alguns casos, a avaliação pode indicar que este ainda não é o momento mais adequado. Isso não é uma sentença nem um “não” definitivo. Significa que existe algo que pede cuidado antes, para que a cirurgia aconteça em condições mais seguras.
A avaliação não pergunta se você merece a cirurgia. Ela pergunta como você está chegando até ela.
O que a avaliação psicológica investiga
Não existe resposta certa a ser decorada. A escuta busca compreender, entre outros aspectos:
- a história da relação com o peso e com a alimentação;
- as expectativas em torno da cirurgia e do que ela pode mudar na vida;
- a forma como a ansiedade, a tristeza ou a frustração aparecem no dia a dia;
- a rede de apoio com que a pessoa pode contar;
- a compreensão das mudanças que a cirurgia exige depois dela.
Por isso, tentar “acertar” as respostas costuma ser desnecessário. O que mais contribui para o processo é poder falar com sinceridade, inclusive sobre as dúvidas.
De onde vem o medo de “não passar”
Para muitas pessoas que convivem com a obesidade, a experiência de ser avaliada não é nova. Ela se repete no olhar dos outros, nas consultas em que o peso fala antes delas, nos comentários que transformam o corpo em assunto público.
Não é estranho, então, que a avaliação psicológica seja vivida como mais um julgamento. O medo de ser reprovada pode carregar a marca de tantas outras vezes em que a pessoa se sentiu insuficiente.
Escutar esse medo, em vez de apenas tentar contorná-lo, já faz parte do trabalho. Muitas vezes, é ali que surge a primeira oportunidade de falar sobre o corpo sem culpa e sem vergonha.
A ansiedade antes da avaliação
Sentir ansiedade antes dos encontros é comum e não compromete a avaliação. Algumas atitudes simples podem tornar esse momento mais tranquilo:
- chegar sem a preocupação de dar respostas “certas”;
- falar também dos receios sobre a cirurgia e sobre a vida depois dela;
- levar as perguntas que surgirem ao longo do processo;
- lembrar que esse espaço de escuta também é seu.
Mais do que uma etapa, um começo
A cirurgia transforma o corpo em pouco tempo. O que se passa com cada sujeito diante dessa transformação, porém, tem outro ritmo. A avaliação psicológica pode ser o primeiro lugar em que essa diferença de tempos é reconhecida.
Quando conduzida com cuidado, ela deixa de ser um obstáculo e passa a ser um ponto de partida: um momento para pensar a decisão, as expectativas e aquilo que, na relação com a comida, ainda pede palavras.
O corpo pode mudar depressa. O que muda com ele precisa de tempo para ser elaborado.
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